Anestésicos Locais

INTRODUÇÃO

Os anestésicos locais são substâncias utilizadas para interromper temporariamente a condução dos impulsos nervosos, promovendo a perda de sensibilidade em uma área específica do corpo, sem comprometer o estado de consciência do paciente. Eles são amplamente aplicados em procedimentos médicos e odontológicos e se dividem em dois grupos principais — amidas e ésteres — que se diferenciam pela estrutura química, forma de metabolização e risco de provocar reações adversas. 

AMIDAS X ÉSTERES

As principais diferenças entre os anestésicos locais do tipo amida e éster estão relacionadas ao metabolismo, risco de reações alérgicas e frequência de uso na odontologia.

Os anestésicos do tipo amida são metabolizados no fígado e apresentam baixo potencial alergênico, sendo atualmente os mais utilizados na prática odontológica. Um exemplo comum desse grupo é a lidocaína, amplamente empregada em consultórios devido à sua segurança e eficácia.

Já os anestésicos do tipo éster são metabolizados no plasma sanguíneo, por uma enzima chamada pseudocholinesterase. Eles têm um maior potencial de causar reações alérgicas, principalmente por liberarem como subproduto a substância PABA (ácido para-aminobenzoico), conhecida por seu potencial alergênico. Devido a isso, o uso dos ésteres na odontologia é cada vez mais raro, sendo reservado para situações específicas. Um exemplo clássico dessa classe é a procaína.

ANESTÉSICOS TIPO AMIDA

LIDOCAÍNA

ꨄ︎ Início de ação: Rápido (2 a 3 minutos)

ꨄ︎ ⏱️Duração: Com vasoconstritor: Duração média de 1 hora em polpa e de 3 a 5 horas em tecidos moles. Sem vasoconstritor: 5 - 10 min.

ꨄ︎ Uso comum: Com vasoconstritor (epinefrina 1:100.000 ou 1:200.000)

ꨄ︎ Indicação: Procedimentos de curta a média duração.

ꨄ︎ Observações: Um dos anestésicos mais seguros e amplamente utilizados.

ꨄ︎ ⚠️Cuidados: Anestésico mais seguro para gestantes (classe B). Usar com cautela em hipertensos e cardiopatas (reduzir dose de adrenalina). Evitar formulações com metabissulfito em asmáticos. Cuidado em diabéticos com adrenalina (pode aumentar a glicemia).

MEPIVACAÍNA

ꨄ︎ Início de ação: Rápido

ꨄ︎ ⏱️Duração: Com vasoconstritores: Duração média de 1 hora em polpa e de 3 a 5 horas em tecidos moles. Sem vasoconstritores: 20 - 40 min (polpa), 2 - 3h (tecidos moles).

ꨄ︎ Uso comum: Com ou sem vasoconstritor.

ꨄ︎ Indicação: Quando se deseja anestesia com menor vasoconstrição (ex: pacientes com restrições)

ꨄ︎ Observações: Causa pouca vasodilatação, sendo eficaz mesmo sem epinefrina 

ꨄ︎ ⚠️Cuidados: Boa opção para hipertensos e cardiopatas (sem vasoconstritor). Evitar em gestantes no 1º trimestre (classe C). Segura para asmáticos e diabéticos, desde que sem vasoconstritor.

ARTICAÍNA

ꨄ︎ Concentração usual: 4% com epinefrina 1:100.000 ou 1:200.000

ꨄ︎ Início de ação: Muito rápido (1 a 2 minutos)

ꨄ︎ ⏱️Duração do efeito: Sem vasoconstritor: Pulpar: 30–45 min, Tecido mole: 60–75 min. Com vasoconstritor: Pulpar: 60–75 min, Tecido Mole: 3 - 5h.

ꨄ︎ Indicações: Maior difusão óssea, ideal para infiltrações.

ꨄ︎ Dose máxima: 7,0 mg/kg (máximo 500 mg)

ꨄ︎ Observações: Amplamente eficaz e utilizada.

ꨄ︎ ⚠️Cuidados: Evitar em gestantes e menores de 4 anos. Cautela em asmáticos (contém metabissulfito ao associar a vasoconstritores). Evitar em pacientes com epilepsia (risco de convulsão com soluções a 4%). Boa opção para hepatopatas (metabolismo rápido no plasma).

BUPIVACAÍNA

ꨄ︎ Concentração usual: 0,5% com epinefrina 1:200.000

ꨄ︎ Início de ação: Mais lento

ꨄ︎ ⏱️Duração do efeito: Sem vasoconstritor: Pulpar: 45–60 min, Tecido mole: 4–6 h. Com vasoconstritor: Pulpar: 90–180 min, Tecido mole: 6–12 h

ꨄ︎ Dose máxima: 2,0 mg/kg (máximo 90 mg) 

ꨄ︎ ⚠️Cuidados: Evitar em cardiopatas (alto risco de toxicidade cardíaca). Não recomendada na gestação (classe C). Cautela em idosos e debilitados (metabolismo lento → risco de acúmulo).

ANESTÉSICOS TIPO ÉSTER

Procaína (Novocaína)

ꨄ︎ Concentração usual:
2% (geralmente sem vasoconstritor)

ꨄ︎ ⏱️Duração do efeito:
15–30 minutos (pulpar)
90–120 minutos (tecidos moles)

ꨄ︎ Indicações:
Procedimentos curtos; opção para pacientes alérgicos a amidas.

ꨄ︎ Dose máxima:

7,0 mg/kg (máximo 500 mg)

ꨄ︎ ⚠️Cuidados: Alta chance de alergia. Pode ter reação cruzada com outros ésteres. Evitar em alérgicos a anestésicos locais do tipo éster.

  

Tetracaína

ꨄ︎ Concentração usual:
0,25% a 0,5% (uso mais comum em anestesia tópica)

ꨄ︎ ⏱️Duração do efeito:

60 minutos (em mucosas) Prolongada quando associada a vasoconstritor.

ꨄ︎ Indicações:
Anestesia tópica em mucosas antes de procedimentos invasivos.

ꨄ︎ Dose máxima:
1 mg/kg (com uso controlado, geralmente em tópicos ou colírios)

ꨄ︎ ⚠️Cuidados: Alta toxicidade sistêmica, evitar uso em mucosas extensas. Pode causar reação alérgica, risco de bradicardia, hipotensão e convulsões em caso de toxicidade.

Benzocaína (Uso tópico)

ꨄ︎ Concentração usual:
20% (uso exclusivamente tópico)

ꨄ︎ ⏱️Duração do efeito:
5–15 minutos (curta duração)

ꨄ︎ Indicações:
Anestesia superficial em mucosas orais antes de infiltração ou procedimentos leves

ꨄ︎ Dose máxima:

Não se aplica da mesma forma que os injetáveis. Deve ser usada em pequenas quantidades. 

ꨄ︎ ⚠️Cuidados: Risco de meta-hemoglobinemia, principalmente em crianças.

REFERÊNCIAS

  • Malamed SF. Manual de Anestesia Local. 7ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier; 2021.
  • Andrade ED. Terapêutica Medicamentosa em Odontologia. 3ª ed. São Paulo: Artes Médicas; 2014.
  • Yagiela JA, Dowd FJ, Johnson BS, Mariotti AJ, Neidle EA. Farmacologia e Terapêutica para Dentistas. 6ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier; 2011.
  • Paiva JG, Antoniazzi JH. Endodontia: Bases para a Prática Clínica. 2ª ed. São Paulo: Artes Médicas; 1988.
  • Haas DA. An update on local anesthetics in dentistry. J Can Dent Assoc. 2002;68(9):546-51.
  • Becker DE, Reed KL. Local anesthetics: review of pharmacological considerations. Anesth Prog. 2012;59(2):90-102.
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